O trabalho biográfico é uma semente criativa que germina no solo do meio da vida e que vai crescendo e tomando o chão dos tempos anteriores que vivemos – nossa infância, adolescência, juventude. Nesse movimento, essa nova planta encontra as memórias que florestam nossa alma de tudo o que vivemos quando éramos crianças, com nossos pais, irmãos, famílias.
Nos espaços em que fomos gradualmente nos constituindo, na escola, com colegas e professores, e nos espaços profissionais em que atuamos. Podemos nos dar conta de que existem territórios áridos e tristes, desprovidos de energia vital. Encontramos memórias que podem ser lindas florestas também. É no processo de caminhar pelos territórios do vivido, com os olhos, os pés e o coração de quem já teve tempo para colher frutos do vivido, que se reflorestam perspectivas presentes e futuras. Se hoje nos encontramos num lugar em que existem forças que atuam em nós, e que nos fazem sentir angústia, medo e auto dúvida, é o sinal claro, luminosos, que nossa alma está no enviando de que é chegada a hora de revisitar e reflorestar nossos territórios conquistados, histórias de nós mesmos que criaram belezas e dores.
O ato de revolver o solo de quem fomos nos permite fazer limpezas, fazer paz, ressignificar e reautorar histórias e pessoas em nossas vidas. Muitas vezes, nesse revolver, encontramos sementes ainda germinantes, e que tendo sido esquecidas por lá, talvez ainda possam achar chão novamente nas florestas do presente e do porvir. Gosto da metáfora botânica para falar desse trabalho, que é um caminhar descalço no chão de nosso ser, por todos os territórios por que passamos e cultivamos, admirando paisagens, visitando florestas, limpando, podando galhos secos, e encontrando novas sementes que talvez tenham estado lá desde o princípio de nosso ser, apenas aguardando o momento oportuno de florescer.
Fazer o trabalho biográfico é reflorestar a alma e o imaginário, revolver solos férteis e encontrar raízes e sementes que ainda podem germinar potência de vida em nós. Trabalho biográfico é caminhar e compostar o chão de nosso ser.
Em meu texto sobre “Forças e Processos”, eu apresento a ideia de que somos feitos de movimento, de ritmos e de respiração constante. Nesse sentido, a biografia humana é um organismo vivo, que vai ganhando cor, forma e movimento conforme vamos nos constituindo sujeitos em nossas relações com os outros e com o mundo que nos cerca ao longo do tempo. A Dra. Gudrun Burkhard articula o conhecimento das fases da vida humana, consolidando-o na metodologia do Trabalho Biográfico de base Antroposófica que ela apresenta em sua célebre obra “Tomar a Vida nas próprias mãos”.
No livro, a autora apresenta a imagem de uma árvore para propor um exercício de autorreflexão do sujeito sobre a evolução de sua biografia. Essa metáfora botânica da vida humana nos permite olhar para a maturação que vivemos ao longo da vida como um processo que pode ser dinamizado no Encontro Biográfico. Dito de outra maneira, o trabalho biográfico, em que o sujeito se engaja em autoconhecimento por meio da troca e da relação com o Aconselhador Biográfico, é potencializado com a ajuda da facilitação vivificante deste último.
Biodinamizar a Biografia
Na Agricultura Biodinâmica (ABD), sistema de cultivo e manejo proposto por Rudolf Steiner, encontrei a minha inspiração para dinamizar a jornada de autorreflexão e transformação do sujeito no Encontro Biográfico. Abaixo a representação imagética do processo vivificador que estou articulando a partir da ABD como metáfora para potencializar o Encontro Biográfico:
O desenho acima traz o movimento na forma da lemniscata (também reconhecida como o símbolo do infinito por alguns). Sobre essa forma dinâmica, encontram-se os setênios da vida humana e as seis plantas que são o princípio ativador dos preparados biodinâmicos. Tomando-se a essência vivificante de cada preparado como metáfora para a condução dinamizadora do trabalho biográfico, temos um delicado, porém potente processo de metamorfose em curso.
As Fases da Vida
Nos três primeiros setênios de nossas vidas, estamos crescendo e constituindo nosso corpo físico. A partir do nascimento biológico do útero materno, iniciamos a jornada do nosso segundo nascimento: maturar para encontrar e fazer nascer o nosso destino, nossa missão de vida. No período de 0 a 21 anos, nos beneficiamos das energias essenciais de Mil-Folhas e Camomila. Aprendemos a nos levantar e andar eretos (propriedades de Mil-Folhas) com nossas próprias pernas e devemos cuidar para nutrir o corpo físico com os estímulos que garantem uma bela e harmoniosa formação (propriedades da Camomila).
A partir da chegada do eu aos 21 anos, com nossa base corpórea física bem formada, seguimos a jornada dos 3 setênios seguintes rumo aos 42 anos, o centro da lemniscata, regido pela energia essencial da organização de Urtiga, que ordena e estrutura os processos vivificadores de todos os outros preparados e sua correlação dinâmica no processo de manutenção da vida do sujeito. Considero que a idade de 42 anos se encontra no exato encontro que ocorre no centro da lemniscata, onde está mais forte a energia essencial de Urtiga. Trata-se do arquetípico momento de olhar a paisagem de nossa biografia como que do alto de uma montanha, de forma a ordenar e organizar nosso pensar, nosso sentir e nosso querer para seguir em frente. Esses são os setênios em que nos estabelecemos no mundo (anos de luta) e ao longo dos quais somos chamados a desenvolver nosso corpo anímico, alma ou psique. Aos 42 anos atingimos a metade da vida. A partir deste ponto, iniciaremos o período de declínio físico gradual que libera energia psíquica para nos dedicarmos ao desenvolvimento do espírito, de nossa sabedoria.
Nos próximos 3 setênios, dos 42 aos 63 anos, se soubermos bem dinamizar nosso processo de autoconhecimento, veremos a linha da alma se unir à linha ascendente do espírito. Essa nutrição vivificadora vem da energia de casca de Carvalho e sua essência de cuidar da proteção da saúde integral, física e anímica, do sujeito. Esses são anos em que estamos especialmente mais suscetíveis a doenças físicas e também psíquicas, e precisamos de um olhar delicado e amoroso para nós mesmos. Ao nos aproximarmos dos 63 anos, adentramos a energia de Dente-de-Leão, cuja essência energética é a da sintonia com a luz do Cosmos, a luz Divina, assim como a sintonia com o solo do nosso ser, onde estão bem plantadas e nutridas as nossas raízes.
A partir dos 63 anos, seguimos a jornada rumo ao amadurecer luminoso, para novamente alcançar o centro da lemniscata e mergulhar numa nova evolução desse processo dinamizador de nosso destino. Nos próximos setênios, estaremos doando ao mundo nossos frutos maduros. Estaremos também preparando o nosso próximo mergulho encarnatório, após a vivência de nossa biografia noturna. Por fim, a energia essencial e arquetípica de Valeriana fornece o manto protetor e promotor da energia vital, garantindo toda a dinamização que precisamos cultivar ao longo de toda a nossa biografia. Valeriana promove o calor essencial para que a vida possa germinar, crescer, e dar frutos.
Reflorestar Biografias
Do encontro vivificante entre as energias arquetípicas das plantas da ABD e o solo da biografia humana nasce a essência do ato de reflorestar biografias. Reflorestar biografias é germinar autoconhecimento, cultivar auto-realização, colher a descoberta de talentos e doar os frutos da realização de nosso destino. A metodologia do Trabalho Biográfico de base Antroposófica vivifica-se, assim, no Encontro Biográfico.
Todos nós acreditamos que somos quem somos, com nosso nome e sobrenome, CPF, e nosso corpo individual. Podemos nomear como ‘identidade’ esse conjunto de crenças sobre nós mesmos e isto nos passa uma sensação de concretude, de estabilidade diante da vida. No entanto, somos menos concretude e mais movimento, menos estabilidade e mais metamorfose. Eu ‘estou’ muito mais do que ‘sou’. Em outras palavras, somos um conjunto de forças e processos em constante devir. Partindo dessa ideia, a Antroposofia nos traz a imagem da biografia humana como um fenômeno vivo, um conjunto de forças e processos que é tão única como cada individualidade.
Desenvolvimento humano
Como um fenômeno humano vivo constituído pela atuação do indivíduo no mundo, a biografia humana engloba dinâmicas de desenvolvimento. Todo ser vivo está sujeito a processos de mudança, de crescimento e de desenvolvimento. Bernard Lievegoed discute as diferenças entre mudança, crescimento e desenvolvimento. Para ele, “‘Desenvolvimento’ é o crescimento no qual mudanças estruturais ocorrem em pontos críticos através do sistema.” (Lievegoed, 1980, p.19) Referindo-se ao desenvolvimento biológico dos seres vivos, Lievegoed explica que este é sempre dirigido com uma finalidade. Dito de outra forma, todo ser vivo se desenvolve em direção a atingir a forma predeterminada do organismo adulto.
Quando falamos de desenvolvimento humano, entretanto, falamos de três padrões distintos de desenvolvimento: desenvolvimento biológico, desenvolvimento psicológico e desenvolvimento espiritual. Essas três categorias de desenvolvimento humano refletem a organização trimembrada do ser humano segundo a Antroposofia, quais sejam: corpo, alma e espírito. Nas palavras de Lievegoed:
“De um lado há o polo da corporalidade, a partir da qual desejos e impulsos se tornam discerníveis na alma. De outro lado há o polo espiritual, onde a alma está no campo da mente, num mundo divino-espiritual de fato. Aqui, através da autopercepção e na atribuição de sentido à vida, o verdadeiro eu do homem como ser espiritual é observável na alma. (…) O pensar está mais diretamente ligado ao mundo do espírito, enquanto o querer está mais intimamente envolvido com o mundo físico do corpo. O sentir está no centro, sendo, para muitas pessoas, a verdadeira qualidade da psique.”
Lievegoed (p. 19, 1980)
Podemos, assim, considerar a constituição e os processos atuantes no mundo interior do ser humano segundo a trimembração na visão Antroposófica:
Espírito — Alma — Corpo
Pensar — Sentir — Querer
Trimembração na Biografia Humana
O curso da vida humana enquanto fenômeno vivo é constituído de fases. Segundo a sabedoria oriental, o homem leva 20 anos para crescer, 20 anos para lutar e 20 anos para se tornar sábio. No Trabalho Biográfico, consideramos que a vida humana se divide em períodos de sete anos, ou setênios, que se organizam em três grandes grupos de três setênios cada um. A seguinte imagem é bastante elucidativa das forças e dos processos atuantes em cada fase da nossa biografia.
Note que a imagem acima considera a vida humana até os 63 anos. Isto não significa que o Trabalho Biográfico não se aplique aos anos posteriores da vida humana. De fato, sabemos que atualmente, guardadas as particularidades socioeconômicas, o ser humano se tornou muito mais longevo, com expectativas de vida que ultrapassam os 80 anos. Existe um Trabalho Biográfico muito rico que pode ser feito também após os 63 anos que é o tema do livro “Amadurecer Luminoso” de Norbert Glas.
Uma observação importante precisa ser feita sobre essa imagem trimembrada da biografia humana que ilustra a metodologia que aplicamos ao longo do Trabalho Biográfico. Não se trata de entendê-la como algo prescritivo, como uma mera ferramenta de identificação de padrões exatos ocorrendo em momentos exatos de vida. O que temos nessa imagem é o conjunto visual das leis biográficas que regem a vida humana. No entanto, nunca devemos perder de vista a individualidade de cada um. Cada sujeito compõe e toca a sua sinfonia única de vida ao longo de seu desenvolvimento. O que as leis biográficas nos oferecem é uma base arquetípica a partir da qual podemos construir novos sentidos para as experiências vividas, alcançando entendimentos mais profundos das forças e processos que estão ativados em nós nas diferentes etapas da vida, e nos convidando a dançar com as forças formativas do nosso próprio destino.
Essa dança se torna mais bela conforme frutifica novos significados que, em última instância, nos levam a realizar o nosso pleno potencial de auto realização ao longo da vida. O que aqui chamo de dança, pode ser chamado de engajamento. Nas palavras de Jonas Bach, no Trabalho Biográfico “o indivíduo é solicitado a um engajamento integral de suas forças psíquicas (cognitivas, afetivas e volitivas) na resolução de impasses biográficos.” (Bach, p.240, 2019)
Nossa biografia é um jardim a ser cultivado. Assim como o agricultor cultiva o alimento em solo fértil, nós cultivamos nosso destino no chão do nosso ser. Podemos descobrir que nosso solo necessita ser cuidado, vivificado, para que possa (re)brotar novos processos. Então sabemos que um mergulho no Encontro Biográfico nos coloca em movimento rumo à realização de nosso pleno potencial de vida.
Em meu próximo texto, vamos mergulhar nos arquétipos que regem as leis biográficas de cada setênio nas diferentes fases de nossa biografia.
Referências:
BACH JR., J. O trabalho biográfico como fonte de aprendizado: autoeducação e fenomenologia de Goethe. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 35, n. 74, p. 233-250, mar./abr. 2019 DOI: 10.1590/0104-4060.61760
LIEVEGOED., B. Fases da Vida: crises e desenvolvimento da individualidade. São Paulo, Editora Antroposófica. 1984